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SURREALISMO

Contrariamente ao Neoplasticismo, os movimentos artísticos que representam "as metamorfoses do inconsciente" (Erich Steingraber, in Deutsche Kunst der 20er und 30er Jahre) vão pôr em cena o imaginário de um homem profundamente condicionado pelas suas pulsões.

Sendo todas estas correntes artísticas fruto de um primeiro impulso literário, têm todas elas, enquanto linguagem plástica, uma nítida relação com a obra de Giorgio De Chirico (pintura Metafísica italiana).

Destes movimentos destacaram-se: os artistas “dadas”, pela sua irreverência; a estética anti-burguesa desenvolvida em redor da revista Merz; e finalmente o surrealismo - movimento artístico que vai explorar o universo do inconsciente humano.    

Face à catástrofe e ao choque provocados pela ocorrência da Primeira Grande Guerra, surge em 1916 um movimento artístico profundamente crítico que se insere na tradição niilista europeia: o Dadaismo. Os artistas desta corrente recusam todas as noções de passadismo, buscando uma total liberdade de expressão - pretendem criar uma anti-arte. Os dadaístas expõem ao acaso em colagens ou conjuntos "miseráveis cacos de uma cultura ultrapassada" (Hugo Ball), ou fotomontagens e cartazes desconcertantes que pretendem subverter o valor da obra de arte. Nessa tentativa de ridicularizar e eliminar os tabus ligados ao valor da obra de arte, Marcel Duchamp começa a expor os seus "ready made" - como um simples urinol, ironicamente intitulado Fonte (1917), causando escândalo no meio artístico novaiorquino. Apesar dessa aparência inconsequente, as obras “dadas” são portadoras de uma estrutura conceptual que resulta de uma atitude criativa em que os dadaístas salientam o papel do inconsciente na criação artística, abrindo caminhos para o imaginário surrealista.

O surrealismo nasce em plenos Anos Loucos, numa França vitoriosa, onde vários poetas se entregam a exercícios de escrita automática, destacando-se André Breton - autor do Manifesto Surrealista de 1924, onde define surrealismo como: "Automatismo psíquico puro através do qual se propõe exprimir, quer verbalmente, quer por escrito, quer de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento."

Durante a primeira fase surrealista (1924-1928), nessa procura de uma linguagem metamórfica, muitos artistas trabalhavam sob o efeito de álcool e droga, produzindo obras de um grafísmo nervoso. Esses quadros apresentam múltiplas imagens irreais, e André Breton explica: "Estamos no interior de uma metamorfose (à escala mundial) e não sentimos mais segurança espacial do que no centro de uma tempestade ou na espiral de um gigantesco maelstrom".

Desde 1929, a polémica à volta do exílio de Leon Trotski, vai abrir uma crise entre os artistas surrealistas. Mas  a essa crise interna do movimento surrealista, junta-se a trágica guerra de Marrocos e a crise económica e social que assola o mundo capitalista, fazendo com que "os espíritos mais esclarecidos se apercebam do regresso próximo, inevitável, da catástrofe mundial" (Breton).

A partir do final da década de 1920, forma-se uma nova geração de surrealistas, destacando-se na pintura: Yves Tanguy, Magritte e Salvador Dali. Estes célebres pintores surrealistas, por influência da obra de Chirico, vão recorrer a uma técnica clássica impecável para representar um lugar indefinido e eterno, pondo em evidência o poder organizador das pulsões do artista na redefinição da obra de arte.

Em toda a produção artística surrealista, a tentativa de interpretação dos sonhos e a associação de imagens mentais acusam uma clara influência das teorias psicanalíticas de Freud. No entanto, este livre jogo da imaginação que permite à arte criar uma ilusão de continuidade, num tempo tão agitado, só é possível pelo recurso a uma técnica meticulosa e a uma total precisão do desenho.

A propósito dessas novas paisagens surrealistas, Dali escreve, em 1947, os seus "50 Segredos Mágicos", explicando que toda a sua obra assenta no método paranóico-crítico: "método espontâneo de conhecimento irracional baseado na objectivação crítica e sistemática de associações e interpretações dos fenómenos delirantes". 

Quando, em 1939, sob a influência de um recente encontro com Freud, Dali publica a "Declaração de Independência da Imaginação e dos Direitos do Homem à sua Própria Loucura", é já claramente impossível manter essa independência e essa liberdade de expressão, pois a proximidade da guerra vai empurrar a maioria dos artistas surrealistas para os Estados Unidos. Mas a morte da liberdade não obrigou à morte do surrealismo, que é, sem dúvida, o mais vasto movimento estético do século XX, alcançando toda a Europa, o Continente Americano e o Extremo Oriente.

 

Caracol, Mulher, Flor, Estrela

Joan Miró, Caracol, Mulher, Flor, Estrela, 1934.

Pintor independente, Miró assimila de modo muito pessoal as revoluções pela cor e pela forma que proliferam na Europa, no início do século XX. Ainda assim, a estética irreal destas "pinturas bravias" apresenta claras afinidades com o surrealismo, transmitindo também as inquietações do artista perante a real ameaça dos fascismos emergentes.

 

   

Sonho Causado pelo Voo de Uma Abelha à volta de Uma Romã-Um Segundo Antes do Despertar

Salvador Dali, Sonho Causado pelo Voo de Uma Abelha à Volta de Uma Romã-Um Segundo Antes do Despertar, 1944.

Com base num desenho perfeitamente clássico, o artista cria estas imagens  "under-real" reveladoras de uma atitude delirante, "procurando criar uma iconografia do mundo interior" (Dali).

 

   

O Abraço Amoroso do Universo, a Terra (México), Diego, Eu e o Señor Xólotl

Frida Kahlo, O Abraço Amoroso do Universo, a Terra (México), Diego, Eu, e o Señor Xólotl, 1949.

Filha de um europeu e de uma mexicana, esta pintora viveu entregue ao cosmos da sua própria criatividade, assumindo uma atitude de não-alinhada dentro da corrente surrealista. Encantado com as suas obras, Breton descreve a artista como: "uma fada-madrinha princesa com poderes mágicos...trajando um vestido feito de asas de borboleta dourada"...