Make your own free website on Tripod.com

CUBISMO

Um dos momentos fundamentais da história da arte do século XX  foi, sem dúvida, a renovada visão da realidade  proposta pelos pintores cubistas. O cubismo veio definir uma nova estética em que a humanidade é confrontada com as suas próprias criações, representando um momento decisivo na criação de um espaço moderno.

O termo "cubismo" é sugerido por uma reflexão de Matisse perante o seu quadro As Casas de L'Estaque (recusado no Salão de Outono de 1908), e que ,segundo o próprio, era "feito de pequenos cubos". No entanto foi Pablo Picasso, com a sua obra de 1907 -As Meninas de Avignon- que inaugurou o movimento cubista. Neste quadro, Picasso revela as suas pesquisas sobre a eliminação de pormenores e sobre a depuração das formas, aprofundando a lição de Cézanne: "Tratar a natureza pelo cilindro, a esfera e o cone". São ainda visíveis nesta obra influências da escultura africana e das artes primitivas, que, aliás, serão "descobertas" com fascínio por muitos outros artistas do século XX.

Muitos dos pintores cubistas tinham anteriores ligações ao fauvismo, e, ao aprofundarem essas revoluções pela cor, alcançaram uma significativa reestruturação das formas. A linguagem plástica sintética criada pelo cubismo baseava-se na decomposição das formas em múltiplos poliedros, na fusão e sobreposição de planos, nas assimetrias e ritmos contraditórios, e na redução da gama de cores e temas. Este reportório formal assenta no princípio da autonomia da obra de arte em relação à natureza; sendo assim, os quadros cubistas são compostos de "elementos tirados não da realidade da visão, mas da realidade da concepção" (Apollinaire).

Explorando as descobertas científicas que marcaram o início do século XX, especialmente no campo da física teórica (a teoria da relatividade de Einstein), os cubistas pretendem representar nas suas obras a quarta dimensão: espaço-tempo. Este propósito revela-se mais metafórico do que científico porque o espaço pictórico é incompatível com a concepção do campo espacial da física, impossibilitando qualquer relação entre o cubismo e a teoria da relatividade, como o próprio Einstein afirmou: "Esta linguagem nova em matéria artística nada tem a ver com a teoria da relatividade".

Numa primeira fase - a do cubismo analítico - , esta pintura representa os objectos segundo uma simultaneidade de pontos de vista, decompondo-os e organizando essas múltiplas facetas geométricas com um grande rigor formal, e com recurso a tonalidades sóbrias. Posteriormente, os artistas cubistas enveredam por experiências com colagens sobre a tela, acentuando a sua bidimensionalidade. Esta é já uma fase sintética em que: gradualmente se abandona a sugestão de volumes, e são propostas formas geométricas mais distanciadas da realidade. No entanto, o cubismo mantém ainda um laço entre o tema e o objecto, que só virá  a ser anulado pelo abstraccionismo.

Na extensa história da pintura ocidental, o cubismo criou uma noção de espaço radicalmente nova, concluindo a desestruturação da espacialidade renascentista que os impressionistas tinham iniciado no século anterior.

Apesar da crise dos valores figurativos que atinge o mundo da arte depois da Primeira Grande Guerra, o cubismo vai ainda produzir obras brilhantes, sobrevivendo até ao final da década de 1930, nomeadamente com Picasso e Braque.

 

O Português

George Braque, O Português, 1911.

Obra representativa do cubismo analítico em  que os  traços  da  personagem  são apenas perceptíveis, pois há uma rigorosa decomposição das figuras e do fundo  em elementos geométricos.

 

   

Nu Descendo Uma Escada

Marcel Duchamp, Nu Descendo Uma Escada, nºII, 1912.

Obra representativa de uma outra vertente do cubismo, renovado  pelo grupo Secção de Ouro, criado  pelos  irmãos  Duchamp e  outros  artistas,  em  1912,    e    cuja decomposição do movimento  se  inspira nos  estudos  de  Marey  e   Muybridge sobre a cronofotografia.

 

   

Pablo Picasso, Guernica, 1937.

Esta obra monumental mistura seres humanos e animais unidos por sentimentos comuns: a dor, a brutalidade, o terror e a morte, espalhados por toda essa pequena cidade basca, após o bombardeamento das Luftwaffe em acordo com o regime franquista. Neste grande painel o espaço baseia-se em planos triangulares, seguindo os princípios cubistas de contradição entre linhas ortogonais e diagonais. No entanto, a deformação dos corpos em longas extensões lineares, assim como a angústia dos rostos, acusam alguns vestígios expressionistas no estilo de Picasso.

Dominando genialmente a linguagem plástica, o artista consegue, verdadeiramente, exprimir aquilo que não conseguiu "dizer" através das suas palavras: "A pintura é um instrumento de guerra para o ataque e a defesa, contra o inimigo.(...) A guerra de Espanha é a batalha da reacção contra o povo, contra a liberdade. Toda a minha vida de artista não tem sido mais do que uma luta permanente contra a reacção e a morte da arte. No painel em que estou a trabalhar, e a que vou dar o nome de Guernica, exprimo claramente o meu horror pela casta militar que mergulhou a Espanha num oceano de dor e de morte."(Pablo Picasso).