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ABSTRACCIONISMO

A evolução da pintura nos primeiros anos do século XX assume gradualmente representações plásticas não naturalistas, cuja orientação é de afastamento em relação à realidade. Esse processo de libertação das formas naturais vai desaguar no abstraccionismo - corrente estética dominante no frenesim artístico que marcou a Europa na década de 1910.

Representando um remate das principais renovações estéticas do século XX, o abstraccionismo carrega também uma longínqua  ligação com a arte neolítica, pois evoca "aquele instinto primordial que tende para a abstracção pura como única possibilidade de repouso no meio da confusão e da obscuridade do mundo das imagens e que cria, a partir de si, por uma necessidade instintiva, a abstracção geométrica" (Wilhelm Worringer, in Abstracção e Intuição).

Por outro lado, a arte abstracta procura materializar um ideal de separação entre um mundo que segue rumos trágicos e uma arte que se pretende autónoma e renovada. O abstraccionismo sugere, assim, uma reflexão sobre a própria arte, cuja sobrevivência depende de uma permanente transgressão plástica, nomeadamente pelo recurso a unidades formais não significativas em relação ao real. A criação da obra de arte é, pois, um processo intelectual, através do qual o artista cria uma ideia sobre o objecto.

Nas origens da arte abstracta destacam-se dois nomes : Paul Klee e Wassily Kandinsky, que, apesar de convergirem no sentido da abstracção, desenvolvem estilos muito pessoais.

Nas telas de Klee, linhas e formas assumem um colorido puramente imaginário, sem referências imediatas ao real. Já o universo formal de Kandisky é um reflexo das suas pesquisas teóricas sobre a arte, sobre os processos de abstracção na arte, que ele claramente expôs em obras como: "Uber das Geistige in der Kunst" (Do Espiritual na Arte), de 1910; ou ainda "Ponto, Linha, Plano", de 1926. Nestas obras, Kandinsky sublinha a necessidade de procurar uma abstracção formal na arte, que é ditada por uma vontade interior, um "Einfuhlung" (intuição).

Com o objectivo de trabalhar a abstracção das formas na pintura, é criado em Munique (1911) o grupo "Der Blau Reiter" (O Cavaleiro Azul"), sendo Kandinsky um dos seus fundadores. 

Recorrendo a um estudo rigoroso das linhas e a um duplo sistema de elementos gráficos (linhas negras, formas e cores), Kandinsky pratica uma arte de introspecção que escapa ao perigo da arte decorativa. As suas telas, próximas do orfismo e do raionismo pelo tratamento do espaço em raios de cores puras, exprimem uma inquietação que pressagia os conflitos que pairam já sobre a Europa, mas reflectem também o seu interesse pela ciência, nomeadamente pelo átomo e pela óptica.

As tendências abstraccionistas nascidas nesse início de século vão ser racionalizadas por Mondrian, que cria em 1913 as suas primeiras telas abstractas, mas só a partir de 1917 os seus quadros irão excluir totalmente qualquer reprodução imagística. Nesse ano, este artista fundou a revista "De Stijl" (O Estilo), à volta da qual se desenvolve um movimento artístico defendido por vários pintores e arquitectos: o Neoplasticismo.

As regras do Movimento Neoplasticista, enunciadas por Mondrian, não admitem qualquer noção de subjectividade nas obras de arte, pelo que: dinamismo, profundidade, movimento ou ritmo não são compatíveis com a abstracção defendida por este estilo. Nesta linguagem plástica, as formas devem ser rigorosamente abstractas e geométricas, seguindo linhas ortogonais. Também no tratamento do plano deve ser realçada a bidimensionalidade, através da aplicação das cores puras fundamentais (azul, vermelho e amarelo) conjugadas com as "não-cores" (preto, branco e cinza).

Mondrian pratica uma pintura geométrica, equilibrando forma e cor nas suas linhas verticais e horizontais, com as quais fixa os seus rectângulos coloridos ao plano, numa procura sistemática de uma plástica pura.

A estética abstraccionista, especialmente na sua vertente neoplasticista, vai influenciar também as novas concepções arquitectónicas, pois segundo essa teoria estética os edifícios devem compor-se de planos ortogonais, respeitando o equilíbrio imutável do ângulo recto.  

A linguagem plástica da abstracção, em geral, e do Neoplasticismo, em particular, pretende ser uma expressão directa do universal em nós, criando uma nova beleza que não depende da natureza.

 

Esboço 2 para Composição VII

 

Wassily Kandinsky, Esboço 2 para Composição VII, nº182, 1913.

Nesta obra é visível a tendência do artista para estabelecer correspondências entre a música e a pintura, expressando essa afinidade através das linhas e cores que compõem as suas telas. De notar, ainda, que ao escolher títulos não referenciais para os seus quadros, Kandinsky manifesta o seu total desapego em relação ao objecto.

 

   

Triângulo Azul e Rectângulo Negro

Casimir Malevitch, Triângulo Azul e Rectângulo Negro, 1915.

Malevitch publicou em 1915 o Manifesto Suprematista, baseando-se na estética geométrica que utilizara, em 1913, na realização dos cenários para "Vitória sobre o Sol" (ópera futurista de Krutchonykh). Este artista defende o "estado supremo da arte", em que a linguagem geométrica liberta da referência à realidade representa um mundo desmaterializado, despojado de objectos. O Suprematismo russo é, pois, mais uma via de abstracção na arte.

 

   

Composição com Vermelho, Azul e Amarelo

Piet Mondrian, Composição com Vermelho,Azul e Amarelo, 1927.

Contrariamente aos cubistas, Mondrian tenta aniquilar a noção de volume, seguindo o seu primeiro princípio do neoplasticismo: "O meio plástico deve ser o plano e o prisma rectangular em cor primária (vermelho, auzl, e amarelo) e em não-cor (branco, preto, e cinzento)". Este artista afirmava, ainda, ter encontrado o ângulo recto na natureza, na Holanda, na paisagem horizontal habitada pelo homem vertical.

 

   

Cadeirão Vermelho e Azul

Gerrit Rietveld, Cadeirão Vermelho e Azul, 1917.

Na criação deste famoso cadeirão, o artista aplicou as teorias estéticas em que assentava o movimento "De Stijl", projectando no espaço formas geométricas e cores puras. Verifica-se, assim, que os movimentos artísticos de abstracção vão expandir-se para além da pintura, influenciando outros campos das artes.